O vento da noite chegou clamando, batendo na minha porta, se esgueirando pelas frestas da antiga tenda e trazendo os espíritos renascidos dos ossos das Mães de Clãs. Eu ouvi as batidas no tambor e as canções sopradas pelo vento. Tinha chegado o momento; cobri-me com meu xale e dancei na noite para celebrar, pois o búfalo tinha retornado. 

Jamie Sams

 

 

Ao longo dos tempos, nos conselhos de mulheres e nas “tendas lunares” das tribos nativas norte-americanas – como kiowa, cherokee, iroquis, sêneca –, as anciãs contavam e ensinavam as tradições herdadas e preservadas pelas suas ancestrais. Dentre as várias lendas, histórias e relatos, sobressaem-se as lendas das Treze Mães de Clãs Originais, que descreviam os princípios essenciais das energias femininas manifestadas pelos aspectos da Vovó Lua e da Mãe Terra.

 

O propósito dos ensinamentos existentes nas diversas tradições era reavivar as habilidades de cura, os dons e talentos femininos inatos, mas adormecidos, esquecidos ou proibidos. Assim podia ser restabelecido o equilíbrio perdido na vida de homens e mulheres, em uma época em que prevalecia o “caminho do guerreiro” e as atitudes, valores e regras patriarcais e masculinas.

 

A lenda das Mães de Clãs descreve a abundância primordial, quando na Terra havia paz igualdade entre sexos, raças e reinos da criação. Porém, aos poucos, a ganância humana pelo ouro (antes um nobre metal usado para objetos cerimoniais) levou à competição, à violência contra a Terra e as mulheres e às guerras fratricidas, provocando cataclismos naturais, mudanças climáticas e o desvio do planeta da sua órbita. Como consequência, o chamado “primeiro mundo” foi destruído pelo fogo, para que houvesse uma purificação planetária.

 

O treze é o número da transformação e das lunações ao longo de um giro da Mãe Terra ao redor do Vovô Sol. Com o passar do tempo, a força dos rituais das Luas cheias reforçou os aspectos do poder feminino, abrindo portais para o fortalecimento, a cura e a expansão da consciência. Quando as Treze Matriarcas foram plasmadas no nível físico, elas criaram uma Irmandade para unir todas as mulheres, baseada nos laços de sangue e ritos que marcavam o ciclo da fertilidade feminina e sua conexão com as fases lunares. Toda mulher tem o potencial de gerar sonhos, mesmo se não puderem gestar filhos. O ventre é o ponto de equilíbrio e a sede do poder feminino, que responde às marés e aos ciclos naturais.

 

A Roda Sagrada de Cura era fundamentada nas treze lunações do ano solar, e tinha doze raios e os correspondentes pontos de poder na sua circunferência, sendo o décimo terceiro ponto o centro. O seu princípio resumia-se no lema: vida, unidade, igualdade, na eternidade. A vida está associada à direção Leste, onde o nascer do Sol anuncia um novo começo e a energia vital abundante. Na direção Sul, a unidade é representada pela fé, confiança, inocência e humildade, associadas à infância e à amizade. O Oeste define a igualdade e a realização dos sonhos, se todas as formas de vida forem honradas como iguais. A eternidade é simbolizada pela sabedoria do Norte e a continuidade de todos os ciclos e leis naturais.

Cada uma das Treze Mães de Clãs Originais detém uma parte das verdades primordiais do legado feminino, tecidos a partir dos mistérios da Vovó Lua e refletidas pela energia da Mãe Terra, na forma física de mulher. Os arquétipos personificados pelas Matriarcas regem as treze lunações de um ciclo solar, a décima terceira correspondendo à Lua azul (a segunda Lua cheia em um mesmo mês) ou violeta (a segunda Lua negra de um mesmo mês), eventos lunares especiais.

Seguindo a ordem cronológica das lunações, na primeira aprende-se e aplica-se a verdade em relação a todos os seres, mundos e mistérios. A segunda lunação ensina a honrar a verdade e usá-la para o autodesenvolvimento, enquanto, na terceira, se aceita a verdade, assumindo-se a responsabilidade dela decorrente e praticando-se justiça e equilíbrio. A quarta lunação oferece a capacidade de reconhecer a verdade em todos os reinos por meio de sonhos, intuições e presságios; a quinta aprimora o talento de ouvir as verdades vindas dos planos físicos e espirituais. Na sexta lunação, torna-se possível expressar a verdade, com humildade, discernimento e fé, para que, na sétima lunação, possa ser manifestado o amor pela verdade individual de todos os seres. A oitava lunação desenvolve o dom de servir à verdade, contribuindo assim para a cura de todos; a nona lunação ensina a viver a verdade, para que seja assegurada a continuidade e a sobrevivência dos descendentes. O talento para trabalhar com a verdade é dado pela décima lunação, que manifesta no plano físico todos os recursos criativos. Para praticar a verdade, a décima primeira lunação mostra a importância do exemplo resumido na sábia frase: walk your talk [pratique aquilo que fala]. A gratidão pela verdade é ensinada pela décima segunda lunação, por meio de orações e oferendas para retribuir o “dar e receber” das lições, dádivas e experiências da vida. A última lunação – a décima terceira – completa o ciclo de transformação, tornado-se a verdade e revelando o poder da regeneração pelo fechamento de um ciclo e a passagem para um novo estágio de aprendizado e crescimento.

 

Cada Mãe trazia no seu coração a visão e o conhecimento sagrado, enquanto no seu ventre guardava os talentos e sementes dos seus sonhos. Reunidas na Casa do Conselho, elas criaram a Irmandade e confeccionaram seus treze escudos de poder e também treze crânios de cristal, nos quais estão impressos a sabedoria, o amor e os talentos do legado feminino ancestral.

 

Para assimilar a sabedoria das Matriarcas é preciso abrir o coração, sem tentar compreendê-la pela razão. As mulheres podem buscar a conexão durante sua fase menstrual, na Lua cheia, negra ou nova, dependendo da sintonia pessoal. Elas visualizam o recebimento da energia amorosa de uma Mãe antiga como “a fertilização das sementes dos seus sonhos e aspirações”, abrindo o coração e a mente para atrair criatividade, força e visão. Dispensam-se palavras e ritos complexos, usando-se apenas sons e ritmos de tambor, canções e danças, poesia e arte para atrair as bênçãos, agradecer e expressar os próprios dons.

A recompensa vem com o encontro da Orenda (a essência espiritual) individual e uma compreensão crescente dos mistérios e ritmos do mundo natural e espiritual. Iremos encontrar equilíbrio na nossa vida se reconhecermos os erros passados, assumindo a responsabilidade para evitá-los no futuro, mudando nossos pontos de vista e atitudes no presente e desenvolvendo os dons que contribuam para o nosso crescimento. Sem encarar os nossos erros como sendo falhas ou derrotas, podemos aprender com os desafios e conflitos inerentes à vida. Aceitando as discórdias, carências e desequilíbrios como sendo lições, desafios e testes necessários ao nosso crescimento, encontraremos o impulso e a força para buscar energia e paz.

 

 

Bibliografia: Círculos Sagrados para Mulheres Contemporâneas, Mirella Faur

Marta Pacheco 
Guardiã de Círculos Femininos | Ginecologia Natural | Terapeuta Holistica e Psicoterapeuta