Como teria sido diferente sua vida se você tivesse um lugar especial para você? Um lugar onde pudesse ir para ficar na companhia de outras mulheres, aprendendo os sagrados mistérios femininos, sentindo-se nutrida, apoiada e fortalecida pelo fluxo de energias divinas, enquanto estivesse resgatando a sua verdadeira identidade. Um lugar somente para mulheres, onde pudesse reconhecer e confiar na energia e no poder que existe dentro de você, liberando-os para fluir e assim melhorar a sua vida. Um lugar para mulheres... Como teria sido diferente sua vida.

Circle of Stones, Judith Duerk

 

 A finalidade dos rituais nos círculos sagrados femininos é criar condições e meios para a conexão com a Deusa, como Mãe Terra, com arquétipos diversos ou com sua representação interior, que é a chama sagrada intrínseca à essência de toda mulher.

Adquirindo e praticando esta consciência – da “sacralidade interior” – é possível estender as mudanças para além das individualidades e atingir o nível coletivo e global. Citando Diane Stein, autora de A Women’s Book of Rituals e realizadora de rituais: “o espaço ritualístico torna-se um microcosmos na Terra, oriundo do universo da Deusa”. Ainda por Diane Stein: “Quando as mulheres se reunirem para criar as mudanças necessárias, uma nova sociedade irá nascer”.

O ritual é uma maneira subtil, porém profunda, de “falar” com a Deusa, lembrando-nos a nossa origem e essência divinas, e auxiliando-nos a abrir a nossa consciência e ampliar a conexão espiritual. Com ele, podemos perceber mais facilmente a Sua manifestação em tudo o que existe, na natureza interior e exterior.

Os rituais mais antigos da humanidade foram os ligados aos Mistérios do Sangue, praticados pelas mulheres desde os tempos remotos, e também aqueles em que se comemoravam as estações, o ato de plantar, colher, pescar, caçar e o intercâmbio com os espíritos ancestrais e os seres da Natureza.

Todavia, esse poder sagrado ancestral persiste na nossa memória subtil e nos impele para retornarmos àqueles momentos mágicos e poderosos de outrora, quando nos reuníamos ao redor de fogueiras ou dançávamos nas noites de Lua cheia. Precisamos apenas querer, ousar e confiar que o nosso axé nos conduzirá com segurança, proteção e sabedoria.

 Os rituais e as cerimónias constituem o cerne da espiritualidade feminina e todos os círculos sagrados os realizam, de uma maneira ou de outra. Eles se apresentam sob diversas formas, com simbolismo e objetivos variados, de modo espontâneo ou elaborado, ocasional ou planejado, e lançando mão de mitos, elementos e práticas de várias tradições e culturas. Mesmo diversos e variados, todos têm em comum uma estrutura e sequência universal, que foram modificadas e adaptadas ao longo dos tempos em função das necessidades e possibilidades das gerações e da sua localização geográfica.

 O objetivo de um ritual é proporcionar um portal que dá acesso aos níveis sutis do universo, ultrapassando as barreiras e limitações dos condicionamentos mentais, culturais, sociais e comportamentais.

Durante um ritual profundo e magisticamente elaborado, ocorre a expansão da percepção e um deslocamento – ou projeção – da consciência, sem a necessidade de substâncias que a alterem quimicamente o cérebro. O estado de um transe leve – induzido pela meditação profunda ou as batidas de tambor – intensifica as sensações e favorece insights, intuições e visões. Ele amplia a imaginação e a criatividade, aprofunda a concentração e revela novas possibilidades e soluções para os problemas e dificuldades quotidianas, sem incorrer nos perigos e miragens do transe provocado por meios químicos ou plantas alucinogénias.

Uma meditação – livre ou dirigida –, precedida de uma adequada preparação e acompanhada por um tema musical apropriado, permite que se tragam para o nível consciente imagens, emoções e memórias guardadas no subconsciente (Eu inferior), proporcionando curas e transformação pessoal. Ao mesmo tempo, ela abre também um “portal” para a comunicação com o supraconsciente (Eu superior), permitindo a conexão com os planos sutis e as energias espirituais e divinas.

A principal finalidade de um ritual nos círculos femininos é permitir, facilitar e aprofundar a conexão e comunhão com a Deusa, atraindo Suas energias para nossas vidas e fortalecendo Sua presença, Seu amor e poder no âmago da nossa essência. A alma feminina deseja e precisa vivenciar essa “imersão no sagrado”, proporcionada pelos elementos, etapas, práticas e propósitos de um ritual. Para poder sair da realidade “comum” e objetiva e penetrar na dimensão incomum e sagrada é necessário criar um campo energético, cujos símbolos e complementos produzam uma ressonância nas participantes.

Quanto mais coordenados e uniformes os passos ritualísticos, tanto mais profundas e duradouras as impressões que produzem e mais perceptíveis seus efeitos. Para atingir esse objetivo, é imprescindível uma programação e preparação cuidadosa do roteiro, dos objetos, das palavras e imagens, dos gestos e da música, para que a experiência ritualística alcance todos os sentidos e permita o estabelecimento dos vínculos espirituais e sua repercussão.

 

 

Você está prestes a entrar em um lugar que está além da imaginação, um vórtice de poder onde se encontram luz e sombra, alegria e dor, segurança e medo, vida e morte. Transponha o portal que separa os mundos, saia da sua realidade cotidiana e descubra uma nova e sagrada dimensão que a leve fora do tempo e do espaço.

– Goddess Spirituality Book, Ffiona Morgan

 

Bibliografia: Círculos Sagrados para Mulheres Contemporâneas, Mirella Faur

Marta Pacheco

Guardiã de Círculos Femininos | Ginecologia Natural | Terapeuta Holistica e Psicoterapeuta